Quando a memória se expande e o exagero vira linguagem de desfile
Há fantasias que mostram resultado. Outras revelam processo. Ao apresentar mais um figurino pensado para a Imperatriz em 2026, Leandro Vieira escolhe o segundo caminho e convida o público a compreender como a estética do enredo nasce da fricção entre memória e invenção.
O ponto de partida é um traje já existente, tratado não como modelo a ser copiado, mas como matéria-prima simbólica. A partir dele, o carnavalesco amplia volumes, expande formas, reduz estruturas, experimenta materiais e revisita modelagens, sempre atento ao corpo que veste e à necessidade do respiro. O objetivo não é criar algo genérico, mas desenvolver uma visualidade própria, coerente com um personagem tão singular em sua expressão plástica.
Nesse intervalo entre o original e a releitura, o figurino ganha autonomia. Ele se afasta da referência direta para se tornar personagem recriado, pensado para a teatralidade do desfile. O exagero surge como escolha consciente, não como ornamento gratuito. É linguagem carnavalesca aplicada a partir de pesquisa, desenho, escrita e experimentação constante.
O traje inicial, macerado e absorvido pelo processo, transforma-se em vulto. Um vulto que envolve o brincante como capa fantasiosa e que, ainda assim, carrega a memória que lhe deu origem. Essa permanência garante a essência do enredo, mantendo viva a presença de Ney Matogrosso mesmo quando a fantasia assume novas proporções e contornos.
O figurino resultante se aproxima de um barroquismo assumido, onde acúmulo, excesso e intensidade se tornam método criativo. Ao divulgar mais essa fantasia, Leandro Vieira deixa evidente o tom do projeto: o Carnaval de 2026 da Imperatriz será construído sem medo do exagero, celebrando o delírio como potência estética.


