No primeiro ensaio do ano, a Vila Isabel mostra que maturidade é cantar com verdade, dançar com sentido e fluir como escola inteira
A Vila Isabel voltou ao Boulevard 28 de Setembro em 7 de janeiro com o tipo de alegria que não se finge. Não era só o reinício de uma rotina: era o reencontro da escola com sua comunidade, com seu ritual semanal, com o espaço onde a identidade se reafirma sem precisar de palco. E a maturidade da noite se traduziu numa imagem simples e poderosa: gente cantando junto, de maneira constante, como se o samba fosse uma promessa compartilhada. A escola pareceu compreender que o caminho para sonhar com um título passa por isso — por fazer o canto virar hábito, e o hábito virar força.
O enredo sobre Heitor dos Prazeres ganha uma camada especial quando a rua vira instrumento. “Macumbembê, Samborembá – Sonhei que um sambista sonhou a África” não pede apenas narração; pede vibração, corporeidade, presença espiritual e orgulho. E o ensaio mostrou que a Vila está escolhendo viver esse enredo antes de contá-lo. A sensação é de obra que contagia porque carrega um fundamento: a ancestralidade não entra como ornamento, entra como pulso.
A comissão de frente, conduzida por Alex Neoral e Márcio Jahú, apresentou uma coreografia que já vem sendo vista, mas com ganho claro de firmeza. Os movimentos, inspirados em gestos e danças de matriz africana, apareceram com marcação forte, braços e quadris bem desenhados e bom aproveitamento do espaço do Boulevard. O detalhe que muda o impacto é a segurança: a coreografia, quando executada com precisão e peso, deixa de ser apenas sequência de passos e passa a ser linguagem.
O casal Raphael e Dandara sustentou uma apresentação clássica, limpa e cada vez mais cúmplice. A dança veio serena, com giros seguros, cortejo bem alinhado e uma elegância que não precisa de excesso para se impor. E no fechamento da apresentação, quando entram gestos associados a Oxum e Xangô, a dança encontra o enredo de maneira direta, como se o pavilhão atravessasse uma camada de espiritualidade e devolvesse ao público um símbolo completo: tradição, fé e arte no mesmo movimento.
No canto, a noite pertenceu ao povo. Tinga conduziu com domínio, mas a impressão mais forte foi a de uma comunidade que se reconhece na obra e por isso canta com vontade. Os refrões vieram fortes, e a segunda parte do samba, especialmente a partir de “De todos os tons, a Vila negra é”, ganhou um crescimento que muda a temperatura do ensaio. Ali, a escola parece se levantar por dentro. E quando uma escola aprende exatamente onde o samba pede que ela se levante, ela começa a dominar a própria narrativa.
A evolução seguiu com leveza e energia, evitando extremos: nem pressa, nem travamento. Componentes soltos em diversas alas ajudaram a criar fluidez, e coreografias surgiram como elemento integrado, mantendo o ritmo sem quebrar o caminhar. E esse equilíbrio tem nome: trabalho. A fala interna que ecoa é a de construção constante, com avaliações, reuniões e ajustes a cada semana, para transformar o treino em refinamento e o refinamento em excelência.
A “Swingueira de Noel” confirmou o momento. Sob mestre Macaco Branco, a bateria mostrou precisão nas bossas e um diálogo afinado com a ala musical, como se o samba abrisse espaço para que a escola se divirta sem perder a mão técnica. Sabrina Sato, com sua alegria diante do público, reforçou o clima de festa, mas a festa ali não desorganiza: ela impulsiona. No fim, o que fica é um retrato nítido: a Vila Isabel voltou ao Boulevard com maturidade, não porque já esteja pronta, mas porque sabe exatamente como ficar melhor.


