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Nove Sambas, Um Só Nome Gravado No Canto

A Grande Rio se despede de Myngau e o universo das disputas sente a ausência de um poeta que sabia escrever para o povo cantar

O anúncio da partida de Myngau, neste sábado, 10 de janeiro de 2026, espalhou luto pelo mundo do samba. A causa não foi divulgada, mas a comoção não precisou de explicação: quando um compositor de disputa cai, cai junto uma parte do próprio som do carnaval. Myngau era desses que circulavam com respeito, desses que chegavam a uma quadra e carregavam a atenção sem precisar pedir. A fama não vinha do barulho. Vinha da escrita: sensível, popular, com aquela inteligência de quem sabe onde a comunidade respira dentro do samba.

Na Grande Rio, a marca é numerosa e, ao mesmo tempo, íntima. Nove sambas assinados na escola, em 2000, 2003, 2004, 2005, 2008, 2009, 2010, 2013 e 2023. Nove vezes em que a disputa virou caminho, e o caminho virou história. Quando uma escola junta tantos momentos com o mesmo compositor, é porque reconhece nele algo raro: a capacidade de traduzir identidade em refrão, de transformar enredo em canto, de fazer a obra soar como se sempre tivesse pertencido àquela comunidade.

E esse talento não se restringiu a um território. Myngau também venceu em diferentes frentes: foi um dos autores do samba da União da Ilha em 2019, conquistou a Unidos de Padre Miguel em 2022 e 2023 e, em São Paulo, integrou a parceria vencedora da Mancha Verde no último carnaval. Em cada praça, um jeito de cantar. Em cada quadra, uma temperatura. E, ainda assim, a caneta dele encontrava o ponto em comum: o lugar onde o povo assume o samba como seu.

A Grande Rio, ao se despedir, falou de poesia, de gratidão e de capítulos vividos juntos. É uma imagem justa. Porque o compositor que deixa nove sambas numa escola não deixa apenas repertório: deixa uma linha do tempo cantada. E quando o carnaval se aproxima, quando as disputas voltam a ferver, haverá sempre um instante em que alguém vai lembrar que certas melodias e certos versos nasceram da mão de um poeta que agora mora em outro plano. A avenida seguirá. Mas seguirá com a memória afinada.